Como melhorar a passagem de plantão médico: quatro estratégias

Por Texto de Jennifer L.W. Fink adaptado por Victor T. Abissamra | 16 de maio de 2019

Aproximadamente 80% das graves iatrogenias médicas decorrem da falta de comunicação durante a passagem de plantão entre profissionais de saúde: um dado assustador, de acordo com a Joint Commission, órgão de acreditação de unidades de saúde baseada nos Estados Unidos.[1] 

Dentre os principais motivos analisados, concluiu-se que informações importantes são inadvertidamente omitidas; um estudo de 2011 publicado no periódico Minnesota Medicine [2] mostrou que em 69% das passagens de plantão entre residentes de clínica médica faltavam informações sobre medicamentos utilizados, e 22% não tinham os antecedentes patológicos do paciente de forma atualizada. 

Outro motivo também está relacionado a comunicação com quem recebe o plantão. Um médico interrompido durante a passagem do plantão pode não se lembrar do que lhe foi dito. Um médico sobrecarregado não retém informações tão bem como uma pessoa com a mente calma e organizada.

Esses dados corroboram que uma passagem de plantão eficiente é extremamente importante para uma boa qualidade no atendimento do doente. Aqui estão quatro estratégias que você pode usar para criar um método que melhore as passagens de plantão.

 

1. Padronizar o procedimento de passagem

As instituições que padronizaram os procedimentos de passagem de plantão observaram quedas drásticas dos erros médicos. [3,4] Após a adoção de uma estratégia de passagem de plantão padronizada baseada em evidências (I-PASS Handoff Bundle), 32 hospitais norte-americanos, dentre os quais 20 hospitais universitários e 12 comunitários, obtiveram redução de 47,1% dos eventos com grandes consequências, e de 46,9% dos eventos com consequências menores. [5,6] 

A padronização da comunicação na passagem do plantão assegura a inclusão de informações essenciais e estabelece expectativas mútuas. Mas a qualidade da transferência pode variar de acordo com a capacidade de comunicação dos participantes.

"Padronizações e modelos ajudam, mas muitos médicos ainda lutam para fazer uma transferência verbal realmente eficaz, (...) nem sempre mais é melhor; uma passagem de plantão longa não é obrigatoriamente o que é necessário". diz Vineet Arora, professora da faculdade de medicina na University of Chicago.

 

2. Juntar informações para priorizar o atendimento

Organizar os pacientes em grupos pode ajudar o médico que está chegando a lembrar informações importantes e priorizar suas ações antes de sair para as visitas. O médico que assumir o plantão pode "agrupar" os pacientes, mesmo se o médico que estiver saindo passar as informações. "O que você realmente precisa fazer é estruturar a situação", diz a Dra. Vineet.

Depois que o médico que está saindo concluir a passagem do plantão, o que estiver assumindo pode sintetizar as informações recebidas: "O Sr. X, a Sra. Y e a Sra. Z provavelmente terão alta amanhã. O Sr. A e o Sr. B não estão tão bem; vou avaliá-los primeiro".

 

3. Criar tempo e espaço para a tarefa

É extremamente difícil fazer uma passagem de plantão de qualidade em um ambiente hospitalar com muito movimento, sendo pressionado pelo tempo. As interrupções são praticamente inevitáveis nesse contexto e prejudicam tanto os médicos como o atendimento do paciente. Ajustar a programação e o fluxo de trabalho de modo a criar um tempo e espaço dedicados à passagem do plantão pode fornecer um retorno imediato, porque as interrupções geram atrasos e contribuem para falhas de memória do trabalho e menor precisão. [7]

"É importante ter uma estrutura rígida com começo, meio e fim bem definidos, para que as pessoas não cheguem atrasadas e levem a transferência da responsabilidade pelo paciente a sério", disse a Dra. Vineet.

No Brigham and Women's Hospital, existe uma superposição de uma hora entre os plantões médicos de rotina. "A intenção é que essa hora seja de fato destinada à passagem do plantão", disse a Dra. Stephanie Mueller, médica e preceptora da faculdade de medicina na Harvard Medical School, em Boston.

"Durante esse tempo, usamos o portal de passagem de plantão integrado ao nosso prontuário eletrônico; este portal segue um modelo, que nos orienta por meio de uma passagem de plantão padronizada".

 

4. Usar comunicação em alça fechada

Quando você pede um café na cafeteria local, o barista normalmente repete seu pedido para você antes de começar a prepará-lo. "Esse é um método criado para diminuir a incidência de erro, para que não seja feito o café errado", disse a Dra. Stephanie.

A comunicação em alça fechada – que exige que quem recebe as informações as repita, de modo a assegurar a compreensão – também pode melhorar a comunicação na passagem de plantão.

"Tradicionalmente, não fazemos muita comunicação em alça fechada na medicina", acrescentou Dra. Stephanie. "Recentemente, isso foi introduzido em algumas áreas de alto risco – pode ser necessário repetir a leitura quando você for notificado sobre uma hemocultura positiva, por exemplo. Precisamos lembrar que as transferências de plantão são uma atividade de alto risco. Os pacientes estão em risco durante esse tempo".

Repetir as informações recebidas não precisa ser demorado; na verdade, um resumo conciso da história do paciente tem maior probabilidade de revelar lacunas de compreensão do que a repetição palavra por palavra.

 

Referências:

1. Joint Commission on Accreditation of Healthcare Organizations. Joint Commission Center for Transforming Healthcare releases targeted solutions tool for hand-off communications. Jt Comm Perspect. 2012;32:1,3. Fonte acessada em 2 de janeiro de 2019.

2. Aylward MJ, Rogers T, Duane PG. Inaccuracy in patient handoffs: discrepancies between resident-generated reports and the medical record. Minn Med. 2011;94:38-41.

3. Colwell J. Better handoffs. Hospitalists explore new tech and face-to-face strategies. ACP Hospitalist. December 2016. Fonte acessada em 3 de janeiro de 2019.

4. Saag HS, Chen J, Denson JL, Jones S, Horwitz L, Cocks PM. Warm handoffs: a novel strategy to improve end-of-rotation care transitions. J Gen Intern Med. 2018;33:116-119. Fonte acessada em 3 de janeiro de 2019.

5. Starmer AJ, Spector ND, Srivastava R, et al; I-PASS Study Group. Changes in medical errors after implementation of a handoff program. N Engl J Med. 2014;371:1803-1812. Fonte acessada em 2 de janeiro de 2019.

6. Frellick M. Patient handoff success reaches more hospitals. Medscape Medical News. April 11, 2018. Fonte acessada em 4 de janeiro de 2019.

7. Riesenberg LA, Leitzsch J, Massucci JL, et al. Residents' and attending physicians' handoffs: a systematic review of the literature. Acad Med. 2009;84:1775-1787. Fonte acessada em 3 de janeiro de 2019.